A BOCA DE DEUS NOS PROFETAS

17/08/2013 12:01

 

O pai de Jeremias era sacerdote, e como este era um cargo vitalício passado de pai para filho, na descendência de Arão, então Jeremias também estava sendo preparado para o sacerdócio quando lhe veio a palavra do Senhor, dando-lhe como profeta às nações.

O próprio nome Jeremias era um nome profético, porque significa “chamado pelo Senhor” ou “a quem o Senhor designou”, ou ainda “levantado pelo Senhor”, tal como foi profetizado acerca de Jesus como o Profeta que seria levantado do meio de Israel (Dt 18.15,18).

Ninguém se faz profeta, pastor, evangelista, missionário, a não ser por um chamado, por uma designação, por um levantamento realizados pelo Senhor.

E o profeta, pastor, evangelista ou missionário receberá também mensagens da parte do Senhor para que sejam pregadas e ensinadas às pessoas às quais forem enviados por Ele. Tal como sucedeu com Jeremias, como se afirma no verso 9:

“Então estendeu o Senhor a mão, e tocou-me na boca; e disse-me o Senhor: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca.”

Estas palavras que foram colocadas na boca de Jeremias, seriam as revelações que lhes seriam dadas da parte de Deus, especialmente os juízos contra o pecado de Judá e das nações. 

O motivo desta chamada e desta ação divina em relação a Jeremias, foi também declarado pelo Senhor ao profeta, quando lhe disse que velava sobre a Sua Palavra para a cumprir.

O Senhor havia afirmado na Lei de Moisés que traria juízos sobre Israel e sobre as nações, no período da dispensação da Antiga Aliança, caso andassem desviados dos Seus caminhos, e agora, tal como a vara de amendoeira era uma planta temporã, que florescia sem falta, antes das demais árvores, o juízo do Senhor também estava amadurecido e seria cumprido tal como Ele havia prometido.    

 E este juízo contra Judá viria como um vapor fervente que sai de uma panela e que vinha desde a direção do Norte, porque seria de lá, de Babilônia, que viria a ruína de Judá, porque seriam levados para o cativeiro pelos babilônios e teriam suas cidades e o templo destruídos por eles.  

  Jeremias conhecia a Palavra do Senhor, porque vivia numa cidade de sacerdotes (Anatote), e bem conhecia as ameaças de juízos da Lei contra a infidelidade de Israel, mas não contava que fosse exatamente ele um dos instrumentos chamados pelo Senhor para protestar diretamente contra as nações o cumprimento de todas aquelas ameaças previstas na Lei, e se sentiu pequeno demais para a grandeza  e importância da tarefa que teria que realizar.

Jeremias começou o seu ministério no décimo segundo ano do reinado de Josias, o qual começou a reinar cerca de 638 a. C., quando era ainda menino, com apenas oito anos de idade, tendo reinado durante 31 anos.

Então, Jeremias começou seu ministério por volta de 626 a. C., ou seja, treze anos após Josias ter começado a reinar. 

Como seu ministério se estendeu até Judá ter sido levado para o cativeiro em 586 a. C. e se prolongando ainda por um pequeno tempo depois disto, então temos um tempo superior a 40 anos para a sua duração total.  

Foi somente no décimo oitavo ano do seu reinado que o rei Josias começou a empreender suas reformas religiosas em Judá, depois de ter sido achado o original do livro da Lei no templo (II Reis 22.3, 10).

Nesta ocasião, Jeremias se encontrava no sexto ano do seu ministério, mas ainda não tinha sido feito notório ao rei, porque em vez de mandar consultá-lo acerca das ameaças contidas no livro da Lei, o rei mandou que fosse consultada a profetiza Hulda (II Reis 22.13,14). 

Nesta altura do nosso comentário nós lembramos das palavras proferidas pelo profeta Samuel ao rei Saul, quando este desobedecendo à ordem do Senhor poupou o rei Agague dos amalequitas, e os animais do seu rebanho sob o pretexto de que pretendia oferecê-los como sacrifício a Deus:

“Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua Palavra?” (I Sm 15.22 a).

Realmente este é o único modo de se servir e agradar ao Senhor, a saber, honrar e cumprir a Sua Palavra.

E foi isto que o rei Josias se dispôs a fazer quando o livro da lei foi achado no templo pelo sacerdote Hilquias.

Por que havia tantos altares espalhados em todas as nações, como também em Israel e Judá?

Por que eram oferecidos tantos sacrifícios e tanto incenso era queimado nestes altares?

Não era porque eles queriam alcançar o favor dos seus deuses?

Sim, não há dúvida. Eram dias de muitas guerras, muitas enfermidades e poucos recursos médicos, e não eram raras as mortes por simples infecções.

Então tudo isto chamava a necessidade da proteção de um ser superior, de uma divindade à qual se pudesse recorrer, não somente na hora da necessidade, mas em todo o tempo para se prevenir do mal.

Mas por que os israelitas faziam isto sabendo que o Senhor o havia proibido expressamente na Lei de Moisés e mostrava o Seu desagrado pelas palavras dos profetas e de todos os juízos que trazia sobre eles?

Simplesmente porque lhes era mais cômodo seguir os costumes das nações pagãs e continuarem fazendo a própria vontade pecaminosa e supersticiosa deles do que se submeterem aos mandamentos e à vontade do Senhor.

Este é basicamente o problema com a maioria da humanidade até os dias de hoje, porque não consegue entender que não é possível ter as bênçãos de Deus e agradar-Lhe quando não se vive para obedecer a Sua Palavra, tal como o profeta Samuel havia dito ao rei Saul.

Nós podemos assim entender porque não há qualquer eficácia diante do Senhor no simples fato de alguém entrar num templo e se submeter aos ritos religiosos que ali se praticam, quando não se tem este caminhar na Sua presença, por um desejo de se cumprir os Seus mandamentos, sabendo que não é o mero rito religioso que lhe agrada, senão a verdadeira obediência da Sua Palavra.      

E isto não mudou na dispensação da graça, porque tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento, se aprende sobre a vontade imutável de um Deus imutável quanto à obediência que é devida à Sua Palavra.

“Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha.” (Mt 7.24).

“E assim por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de Deus.”Mt 15.6).

“Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.” (Mc 13.31).

 “Ele, porém, lhes respondeu: Minha mãe e meus irmãos são estes que ouvem a palavra de Deus e a observam.” (Lc 8.21).

“Mas ele respondeu: Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus, e a observam.” (Lc 11.28).

“Dizia, pois, Jesus aos judeus que nele creram: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos;” (Jo 8.31).

“Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso vós não as ouvis, porque não sois de Deus.” (Jo 8.47).

“Quem me rejeita, e não recebe as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o julgará no último dia.” (Jo 12.48).

“Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me amar, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos a ele, e faremos nele morada.” (Jo 14.23).

“Se vós permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e vos será feito.” (Jo 15.7).

“Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade.” (Jo 17.17).

 “E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” (Tg 1.22).

“mas qualquer que guarda a sua palavra, nele realmente se tem aperfeiçoado o amor de Deus. E

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.” (Jo 14.21).

Quando lemos todos estes textos bíblicos sacados do Novo Testamento sobre a necessidade de se guardar a Palavra de Deus, é que nós podemos entender melhor de que espírito estava imbuído o rei Josias.

Ele queria agradar ao Senhor completamente, e percebeu que havia somente um modo de fazê-lo: por uma estrita obediência aos Seus mandamentos.

Por um desejo intenso de guardá-los em todas as suas minúcias, sabendo que eles expressam a vontade do Deus Altíssimo para todos os Seus filhos.  

Não faz justiça à piedade de Josias pensar que ele se dispôs a guardar a Palavra de Deus somente porque temeu os juízos que estavam proferidos na Lei de Moisés sobre o pecado que Deus traria sobre os judeus, por terem transgredido os Seus mandamentos, e em razão das ameaças dos castigos previstos na Lei.

Obviamente que tais juízos encheram de temor o Seu coração mas foi por um genuíno amor à vontade do Senhor revelada na Sua Palavra que ele se dispôs completamente a praticá-la.

Por que então teria o Senhor determinado o cativeiro de Judá, mesmo nos dias em que Josias empreendia suas reformas religiosas, e de estar se agradando tanto da vida deste rei piedoso?

Nós achamos a resposta para esta pergunta em II Reis 23, no qual podemos ver quantas abominações havia em Judá quando o rei Josias começou a destruí-las; e ao mesmo tempo, o quanto os judeus estavam negligenciando as ordenanças da Lei de Moisés, como por exemplo o terem deixado de celebrar a páscoa; da qual se diz no verso 22, que não vinha sendo celebrada desde os dias dos Juízes.

O fato de Deus ter suportado por tanto tempo as transgressões da sua Lei pelos israelitas, a par dos juízos que trouxe sobre eles por causa destas transgressões, demonstra quão grandes são realmente a Sua misericórdia e longanimidade, pois não estamos falando de dias, mas de séculos, porque desde Moisés até Josias, nós temos cerca de 800 anos.

E deve ser considerado que a par de que eles seriam levados para o cativeiro, e até mesmo de terem ficado sem profetas durante os 400 anos do período interbíblico, e ainda, depois de terem sido espalhados pelo mundo após 70 d. C., Deus não havia rejeitado definitivamente os judeus, conforme é afirmado pelo apóstolo Paulo no 11º capítulo da epístola aos Romanos (v. 1 a 6); e nos versículos 11 e 12 deste mesmo capítulo, ele expõe que o motivo de os israelitas terem tropeçado já havia sido previsto por Deus de maneira a poder se voltar também para os gentios, mas não deixando a Israel de lado, porque foi este povo que Ele havia plantado para trazer através dele a salvação a todo o mundo. 

Como poderia então o Senhor rejeitar definitivamente a quem havia formado e elegido para tão grande vocação de ser bênção para o mundo?

E sem qualquer outra consideração somente o fato de termos recebido através deles as Escrituras já justifica a importância desta nação para Deus.

Por isso, a salvação em Cristo sempre permanecerá aberta para eles, e até mesmo com prioridade, conforme o próprio Deus estabeleceu no princípio da pregação do evangelho, porque o mundo tem uma dívida para com os judeus, e não admira portanto que esta porta para a salvação esteja aberta para eles para serem enxertados de novo na oliveira santa e na videira verdadeira que é o Senhor Jesus (Rom 11.23), da qual, na verdade, eles nunca teriam sido cortados se permanecessem na fidelidade que é devida ao Senhor.

Então nós só podemos entender que o brasume da Sua ira demonstrado contra os judeus nos dias de Josias, mesmo em meio às reformas que aquele rei estava empreendendo tinha a ver com a visitação dos pecados deles para serem purificados da sua idolatria, como efetivamente foram depois de terem sido levados cativos para Babilônia, porque os que retornaram de Babilônia para Jerusalém 70 anos depois do cativeiro, podem ser chamados de fato de judeus novos, porque demonstravam agora um grande apreço pela Palavra do Senhor e haviam sido curados definitivamente do pecado da idolatria, que era tão comum nos dias dos Juízes e dos Reis de Israel.

De sorte que a afirmação que se lê nos versos 26 e 27 de II Reis 23, que o Senhor, apesar de toda a fidelidade de Josias, não se demoveu do ardor da Sua grande ira, com que ardia contra Judá, e que o levara a decidir por expulsá-los da terra, tanto como fizera ao reino de Israel, não significava que não estivesse se agradando das coisas que Josias e muitos do povo estavam fazendo para obedecer a Sua Palavra, mas que não seria isto que suspenderia os juízos previstos na Lei, quanto a serem expulsos da terra, porque na Sua presciência o Senhor sabia que sempre continuariam idolatrando, e somente seriam convencidos de que foi a idolatria deles a causa do Seu desagrado e juízos, quando  fossem conduzidos para o cativeiro, onde  aprenderiam definitivamente que é uma vida reta com Deus que livra do mal, e não altares, templos etc, porque Ele permitiria que o próprio templo de Jerusalém fosse totalmente destruído e saqueado pelos babilônios.

E foi por isso que antes de fazê-lo Ele lhos anunciou pelos profetas, dizendo que não somente rejeitaria ao Seu povo como ao Seu próprio templo que ele mandara edificar nos dias de Salomão, e para este propósito Jeremias havia sido também levantado por Deus.

Ele havia sido separado (santificado – v. 5) por Deus para o ofício profético desde antes de ter sido formado no ventre, ou seja, desde antes da fundação do mundo, conforme Seu conselho eterno.

A incapacidade que Jeremias sentiu para o exercício da função para a qual estava sendo designado, confirmava que de fato aquele era um trabalho para ser feito pelo próprio poder de Deus através dele, de maneira que ao dizer que não sabia falar porque era um menino (v. 6), não foi duramente repreendido pelo Senhor, mas apenas advertido para que não dissesse que era um menino, porque deveria ir a todos aos quais fosse enviado por Ele, e lhes dizer tudo quanto Lhe ordenasse para ser dito (v. 7), e que não deveria temer a face do homem, porque seria com ele para livrá-lo deles (v. 8). 

Jeremias foi capacitado e ungido por Deus para o ministério, quando o Senhor estendeu a Sua mão e lhe tocou a boca dizendo que estava colocando as Suas palavras na sua boca (v. 9).      

E lhe instruiu quanto à autoridade que lhe estava conferindo para arrancar e derrubar nações, porque seria por Sua boca, que o Senhor profetizaria sobre a queda de Judá, de Babilônia e de outros reinos, bem como acerca daqueles que passariam a exercer domínio na terra.

E não somente isto, ele também receberia autoridade para profetizar o que seria destruído e arruinado nas nações, como consequência dos juízos de Deus, bem como proferiria promessas consoladoras quanto ao que haveria de ser restaurado e plantado pelo Senhor no futuro, especialmente a restauração de Judá, depois de cumpridos os setenta anos determinados para o seu cativeiro, conforme foi revelado a Jeremias (v. 10).   

Não foi um ancião que Deus chamou para protestar contra o pecado das nações, e especialmente de Judá, mas um jovem, porque os últimos quarenta anos de existência do reino de Judá, antes do cativeiro, deveriam ser acompanhados pelo profeta. Ele envelheceria durante a realização do seu ministério sendo um sinal de Deus que o juízo seria amadurecido também até o ponto de ser cumprido sobre toda a nação pecadora.    

Jeremias não deveria portanto temer ser menosprezado por sua juventude porque o poder do Senhor seria com ele, revelando a Judá que jovens tais como Jeremias e o próprio rei Josias, podiam e deviam viver uma vida consagrada a Ele, coisa que estava sendo rejeitada pela grande maioria dos judeus, quando isto era um dever de todos eles, na condição de povo da aliança.  

De tal maneira Jeremias foi fiel no cumprimento da missão de falar as palavras que Deus colocasse em sua boca, que tudo o que recebera da parte dEle se encontra registrado na Bíblia como Escritura eterna.

A Palavra de Deus continuava sendo produzida nesta época, e seria fechada no Antigo Testamento somente com o profeta Malaquias.

É importante trazer isto em lembrança, para sabermos que o caráter da chamada de Jeremias era algo diferente da chamada comum de pastores e outros ministros do evangelho, porque somente a eles (profetas) e aos apóstolos de Cristo, foi dada a honra de receberem as revelações de Deus que são imutáveis, e que foram registradas por escrito para a instrução do Seu povo na verdade, vindo a ser reconhecidas como a Sua Palavra autorizada e canônica, para todas as gerações, Palavra esta que temos a incumbência de pregar, ensinar e defender, porque é questão fechada que a ninguém mais Deus estará revelando qualquer nova verdade que já não se encontre registrada na Bíblia.        

Uma vez comissionado o profeta, Deus lhe deu instruções quanto ao posicionamento que deveria ter dali por diante.

Ele deveria ser achado cingido e firmemente de pé, para lhes dizer tudo quanto lhe ordenasse, e que não ficasse espantado diante deles, porque senão ele próprio seria espantado por Deus diante deles, ou seja, não Lhe daria a graça e autoridade necessárias para o desempenho da sua função, de maneira que viria então a ser menosprezado e envergonhado diante daqueles contra os quais pronunciaria os juízos de Deus (v. 17).  

Todavia, não deveria temer porque o Senhor havia feito dele uma cidade fortificada com colunas de ferro e muros de bronze, capaz de suportar os ataques que lhes viessem de todas as partes da terra, e especialmente dos reis de Judá, seus príncipes, sacerdotes, bem como de todo o povo, que não andasse debaixo do temor do Senhor e que se voltasse contra Jeremias com fúria, para pelejar contra ele.

Contudo o Senhor lhe fez a promessa que eles lutariam contra ele e o perseguiriam mas não poderiam prevalecer, porque o Senhor estaria com ele  para livrá-lo (v. 19). 

O mesmo que Deus fez com Jeremias fez com Paulo, e com todos os servos que tem chamado para pregarem o evangelho e protestarem contra os pecados dos homens e das nações, para que se arrependam e se convertam a Jesus Cristo.

 

Fonte: http://livrosbiblia.blogspot.com.br/2012/12/a-boca-de-deus-nos-profetas-jeremias-1.html